Cacau além do chocolate: pesquisa na Bahia transforma resíduos em bioprodutos e aponta novo modelo de bioeconomia
Projeto integra IF Baiano, UESC, INTBIO, cooperativa e ensino técnico para converter até 92% do fruto, antes descartado, em insumos industriais de alto valor
Uruçuca (BA) – Um conjunto de pesquisas conduzidas no sul da Bahia está reposicionando o cacau no cenário científico e industrial brasileiro. Tradicionalmente explorado pela amêndoa, base da produção de chocolate, o fruto passa a ser investigado como uma matriz complexa de biomassa, com potencial para gerar insumos em diferentes cadeias produtivas, da alimentação à energia.
A iniciativa é liderada pelo Instituto Federal Baiano (IF Baiano), em parceria com a Cooperativa de Serviços Sustentáveis da Bahia (COOPESBA), a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), o Instituto de Tecnologia, Inovação e Biotecnologia do Sul da Bahia (INTBIO) e instituições de ensino técnico. O objetivo é transformar frações historicamente subutilizadas, como casca, mel, película e endocarpo, em biocompostos com aplicação industrial.

Segundo os pesquisadores, cerca de 92% do cacau ainda é descartado após a retirada da amêndoa. Esse volume representa não apenas perda econômica, mas também um passivo ambiental. O projeto busca reverter esse cenário ao propor o aproveitamento integral do fruto.
“Estamos demonstrando que esse material residual pode ser convertido em produtos de alto valor agregado. O conceito é transformar o sistema produtivo do cacau em uma biorrefinaria”, afirma o coordenador do projeto, professor Ivan Pereira, do IF Baiano.
Fracionamento da biomassa e geração de insumos
No centro da pesquisa está o fracionamento da biomassa lignocelulósica presente principalmente na casca do cacau. Esse processo permite a separação de três componentes estruturais: celulose, hemicelulose e lignina, cada um com aplicações específicas.
A celulose pode ser convertida em etanol de segunda geração, um biocombustível produzido a partir de resíduos vegetais. A hemicelulose pode ser utilizada na produção de xilitol, um adoçante de interesse alimentar. Já a lignina apresenta potencial para a geração de compostos com atividade antioxidante.
“Estamos trabalhando na valorização integral dessas frações, com rotas tecnológicas que permitem sua aplicação em diferentes setores industriais”, explica o professor Marcelo Franco, da UESC.
Pós-doutor em Ciência dos Alimentos e doutor em Química, Franco lidera pesquisas voltadas ao reaproveitamento de subprodutos agroindustriais e à produção de compostos de alto valor agregado.
Tecnologias limpas e novos ingredientes
Outro eixo relevante da pesquisa envolve o desenvolvimento de métodos sustentáveis de extração de compostos bioativos. Entre eles está a extração ôhmica, que utiliza corrente elétrica para facilitar a liberação de substâncias da matriz vegetal.
“Essa técnica permite extrair pectina sem o uso de solventes orgânicos, o que reduz impactos ambientais e melhora a eficiência do processo”, afirma Franco.
A pectina, presente na casca do cacau, é amplamente utilizada como agente gelificante na indústria alimentícia. O mesmo material também pode ser aplicado na produção de bioplásticos e bioinsumos agrícolas.
O mel de cacau, outra fração pouco aproveitada, também vem sendo estudado.
“Ele pode ser utilizado na formulação de bebidas funcionais e xaropes com baixo índice glicêmico, além de servir como substituto de açúcares em produtos alimentícios”, explica o pesquisador.
Em parceria com instituições internacionais, os cientistas também investigam a produção de compostos prebióticos, como frutooligossacarídeos e xilooligossacarídeos, por meio de processos enzimáticos.
Avaliação ambiental e viabilidade econômica

Além do desenvolvimento tecnológico, o projeto incorpora ferramentas de avaliação ambiental. A aplicação da Análise de Ciclo de Vida permite mensurar impactos desde a produção agrícola até o processamento industrial.
“A análise ajuda a identificar pontos críticos da cadeia produtiva, otimizar processos e agregar valor ambiental aos produtos”, destaca Marcelo Franco.
Nesse contexto, o INTBIO atua como articulador estratégico na conexão entre ciência, inovação e desenvolvimento regional.
“A proposta é consolidar o sul da Bahia como um polo de bioeconomia, integrando pesquisa, inovação e setor produtivo. O aproveitamento integral do cacau mostra que é possível gerar valor econômico com responsabilidade ambiental e protagonismo territorial”, afirma Caliana Mesquita, presidente do Instituto de Tecnologia, Inovação e Biotecnologia do Sul da Bahia (INTBIO).
Educação científica e inovação social
A pesquisa também se desdobra na formação científica de estudantes da educação básica técnica. No Centro Estadual de Educação Profissional em Biotecnologia e Saúde, em Itabuna, alunos do ensino médio participam de projetos de iniciação científica voltados ao aproveitamento do cacau.
“Trabalhamos com foco na sustentabilidade e no uso de recursos naturais da região. O cacau é uma das principais bases das nossas pesquisas”, afirma o professor Jorge Hamilton Sena Dias, docente de Química do curso técnico em Biotecnologia, especialista em ensino de Ciências e mestre em Ensino de Química.
Segundo ele, os estudantes já desenvolvem soluções com aplicação prática.
“O aproveitamento da casca e da amêndoa tem gerado produtos que vão de biofertilizantes a cosméticos e aplicações fitoterápicas. Conseguimos produzir uma pomada com ação anti-inflamatória a partir desses compostos”, afirma.
Para o professor, a experiência impacta diretamente a formação dos estudantes.
“Esses projetos ampliam o interesse pela ciência, promovem a participação em feiras e fortalecem o vínculo com a cultura e a história da região”, completa.
Impacto na cadeia produtiva
Para a COOPESBA, o aproveitamento integral do cacau representa uma oportunidade concreta de diversificação econômica para a agricultura familiar.
“Estamos criando novas possibilidades de renda sem ampliar áreas de cultivo. É um modelo que alia sustentabilidade e inovação”, afirma a presidente da cooperativa, Carine Assunção.
Perspectivas
A próxima fase do projeto prevê a implantação de uma planta-piloto para validação em escala semi-industrial. A meta é desenvolver produtos com dossiê técnico completo, aptos para registro regulatório e inserção no mercado.
Para os pesquisadores, o avanço sinaliza uma mudança estrutural no setor.
“O cacau deixa de ser apenas matéria-prima para chocolate e passa a ser uma plataforma de desenvolvimento tecnológico e industrial”, conclui Ivan Pereira.
Por Caliana Mesquita








