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CRISE DO CACAU - Se produzir cacau se torna inviável, o que restará para a região?

Se produzir cacau se torna inviável, o que restará para a região?

Atualizado em 03/03/2026 às 09:03, por Ney Marçal.

CRISE DO CACAU

Cacau

A cacauicultura do sul da Bahia, historicamente símbolo de riqueza, identidade cultural e resistência produtiva, volta a enfrentar um cenário dramático. A crise no preço da arroba do cacau, com valores abaixo de R$ 200,00, reacende um ciclo perigoso de descapitalização, desemprego rural e abandono de propriedades.

Durante décadas, cidades como Ilhéus, Itabuna e Uruçuca estruturaram sua economia em torno da lavoura cacaueira. O sistema produtivo da região, em grande parte baseado no modelo cabruca — que preserva a Mata Atlântica — sempre dependeu intensamente de mão de obra. Diferentemente de culturas altamente mecanizadas, o cacau exige cuidado constante: poda, roçagem, controle fitossanitário, colheita e beneficiamento.

Com a arroba em patamar inferior ao necessário para cobrir custos básicos, muitos produtores já começaram a dispensar trabalhadores com carteira assinada (CLT). A matemática é simples e cruel: não há como pagar salários, encargos sociais, insumos e manutenção da propriedade quando a receita não cobre nem o custo operacional. O resultado imediato é o aumento do desemprego rural e a migração forçada de trabalhadores para as periferias urbanas.

Nos sistemas de parceria, a situação não é menos grave. O modelo tradicional de meeiros — em que 50% da produção fica para o dono da terra e 50% para o parceiro — sempre foi uma alternativa para manter a atividade funcionando mesmo em momentos difíceis. Porém, com o preço atual da arroba, muitas vezes não há renda suficiente sequer para dividir. O risco é evidente: o parceiro abandona a propriedade por inviabilidade econômica, e o produtor perde sua força de trabalho. Sem mão de obra, a lavoura se degrada rapidamente.

A consequência já começa a se desenhar: propriedades sendo abandonadas, áreas produtivas retornando ao mato por falta de manejo e produtores históricos desistindo da atividade. O cacau, que já enfrentou a devastação causada pela vassoura-de-bruxa nos anos 1990, agora enfrenta um inimigo igualmente perigoso: a inviabilidade econômica.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: quem investirá em uma cultura que gera prejuízo? O produtor rural assume riscos climáticos, fitossanitários, trabalhistas e financeiros. Se o preço pago não remunera minimamente o esforço produtivo, não há sustentabilidade possível.

Outro questionamento que ecoa entre os agricultores é ainda mais sensível: qual a lógica da indústria ao manter um patamar de preços que sufoca a base produtiva? Se a cadeia depende da matéria-prima, promover — direta ou indiretamente — a falência de propriedades compromete o próprio abastecimento futuro. A concentração da produção nas mãos de poucos ou a dependência excessiva de importações pode até parecer vantajosa no curto prazo para determinados segmentos, mas fragiliza toda a estrutura regional.

A crise do preço do cacau no sul da Bahia não é apenas um problema econômico; é social, ambiental e estratégico. Afeta empregos, reduz renda, estimula o êxodo rural e ameaça um modelo de produção que historicamente conciliou agricultura e conservação ambiental.

Se nada for feito — seja por meio de políticas públicas de garantia de preço mínimo, linhas de crédito adequadas ou maior equilíbrio na relação entre indústria e produtor — o que está em risco não é apenas uma safra. É a sobrevivência de uma cultura que moldou a história do sul da Bahia.

A pergunta final não é retórica: se produzir cacau se torna inviável, o que restará para a região?

Ney Marçal